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Amamentação e Segurança Alimentar 
Penny Van Esterik 

Segurança alimentar significa a garantia de obtenção de alimento em  quantidade e qualidade suficiente para que todos possam manter uma vida produtiva e saudável, hoje e no futuro. As comunidades desfrutam de segurança alimentar quando todas as pessoas têm acesso a uma alimentação adequada, acessível, aceitável, e obtida a partir de recursos locais, sobre uma base contínua e sustentável. 

Para os 140 milhões de bebês que vêm ao mundo a cada ano, a amamentação tem um papel extremamente importante como forma de garantia de segurança alimentar. Não há nada mais acessível e nutritivo do que o leite materno, um alimento completo para todas as crianças, até os 6 meses de vida. Até essa idade, os bebês não têm necessidade de nenhum outro alimento, nem sequer de água ou chazinhos.  

O leite materno, sozinho, é suficiente para garantir uma nutrição perfeita. 
Mesmo após os seis meses, o leite materno continua oferecendo as bases para o desenvolvimento infantil com os nutrientes essenciais e energéticos, ajudando a prevenir a desnutrição e as deficiências de micronutrientes. 

Esta proteção pode se estender ainda mais: a Organização Mundial de Saúde preconiza que a amamentação deve continuar, com complementos, até pelo menos o segundo ano de vida do bebê. 

VANTAGENS DO LEITE MATERNO 

Benefícios para os bebês 

  • O leite materno tem anticorpos e funciona como uma vacina que protege o bebê contra doenças, além de fornecer um alimento super nutritivo.
  • A incidência de diarréia é de 3 a 14 vezes maior em bebês alimentados com mamadeiras quando comparados com os bebês amamentados ao seio.
  • O aleitamento materno ajuda também a prevenir eczemas e alergias 
  • alimentares e respiratórias, tanto na infância como na adolescência.
  • A composição do leite materno muda a cada mamada e vai se transformando conforme avança o processo de lactação, enquanto as fórmulas artificiais sempre se mantém uniformes.
Benefícios para as mulheres 
  • A amamentação, devidamente orientada e com apoio da comunidade, é um prazer especial para as mães e para seus bebês.
  • Também oferece benefícios a longo prazo para as mães - o aleitamento reduz o risco de câncer de mama e de útero, de anemia e de osteoporose.
  • A mulher que amamenta já na maternidade corre menos risco de ter hemorragias no pós-parto, uma das principais causas de mortalidade materna no Brasil.
  • O aleitamento materno exclusivo ajuda no espaçamento entre uma gestação e outra, dando à mulher mais tempo para recuperar-se do parto, e assim poder cuidar do seu bebê e contribuir com a segurança alimentar da sua comunidade.
  • Amamentar é muito mais econômico. Alimentar um bebê com alimento artificial pode custar, mensalmente, mais que a metade de um salário mínimo, no Brasil.
Benefícios para as famílias 

A amamentação custa muito pouco para as famílias e para as mães. A  
alimentação artificial, por outro lado, pode consumir de 20% a 90% da renda familiar, incluindo-se aí os custos de cuidar de crianças doentes.  
Portanto, não são apenas as mães e os bebês que se beneficiam com a  
amamentação. 

O custo da alimentação artificial pode significar que outros membros da família sejam impedidos de consumir alimentos nutritivos que lhes permitam manter-se saudáveis. Por que então recusar os benefícios da amamentação, o melhor alimento para o bebê, e ainda economizar recursos para todos? Tanto o bebê quanto seus familiares obterão vantagens com o aleitamento materno, e terão melhores oportunidades de acesso a uma alimentação mais nutritiva. 

Benefícios para as comunidades 

Não existe nenhuma dúvida que a amamentação é extremamente importante para a segurança alimentar dos bebês e, além disso, uma grande contribuição para que o problema da fome em todo o mundo seja atenuado. 

Mesmo assim, não é nossa intenção colocar mais essa responsabilidade nas costas das mulheres. Devemos respeitar seu direito a optar pela amamentação ou não. No entanto, cabe a toda a comunidade ajudar a orientar as mães, e lhes dar todo apoio necessário, caso elas decidam amamentar. 

As mães devem estar seguras de que, quando amamentam, estão oferecendo a seu bebê o melhor alimento possível. Mesmo as mulheres que vivem em situação de risco, que experimentam elas mesmas a fome, e que não podem comprar os alimentos que necessitam diariamente, podem amamentar. As mães, por mais pobres que sejam, devem estar seguras de que estão oferecendo a seus bebês o melhor alimento que a natureza pode oferecer, e que seu leite será sempre de ótima qualidade. 

A mulher não necessita de um grande acréscimo de alimento quando está amamentando. Quando trabalhamos com mulheres de comunidades carentes, sempre lembramos que, ao invés de gastar dinheiro comprando mamadeiras, bicos, leites artificiais, farináceos, e gastando gás de cozinha para ferver água e utensílios, elas deveriam reverter este investimento em alimentos para elas próprias, e amamentar seus filhos. 

Esta segurança, entretanto, deve ser acompanhada da respectiva luta pela melhoria da saúde e nutrição materna. A mãe que amamenta tem direito a uma melhor nutrição, e a sociedade deve cumprir com essa responsabilidade.  

Nós sabemos que, nas famílias, as mulheres têm a tendência de serem as últimas a se alimentar. Trata-se, então, de buscar uma transformação desse comportamento e  privilegiar o papel da mulher nutriz, que está alimentando seu bebê e deve, portanto, ter acesso à melhor alimentação possível, de acordo com os seus recursos. 

Por outro lado, muitos governos têm programas de distribuição de leite: o que estão fazendo, infelizmente, é perpetuar a pobreza.  Por que não oferecer outro tipo de alimento, com características locais e que não contribuam para o desmame?  

Existem muitos interesses econômicos de indústrias de leite envolvidos nessas campanhas e que só trazem prejuízo à sociedade. A mãe poderá receber uma lata e com isso iniciar a alimentação por mamadeira do seu bebê. Mas como vai comprar a próxima lata? O primeiro passo para mudar essa situação é compreender que a promoção do aleitamento materno  é o melhor caminho para aumentar a segurança alimentar, e não a introdução do alimento artificial caro e inadequado. A prioridade  
deve ser oferecer às mulheres uma melhor nutrição enquanto estão  
amamentando. 

Os bebês amamentados serão mais saudáveis e inteligentes e desta forma as comunidades também serão beneficiadas. 

"Investir na promoção do aleitamento materno é uma das intervenções de saúde com melhor custo-benefício disponíveis" 
(Orton et a. 1996:165). 

Benefícios para o meio ambiente 

Vivemos em um mundo cada vez mais poluído, e o aleitamento materno evita desperdício de recursos e agressões ao meio ambiente. Cada mãe que amamenta reduz o problema da contaminação e do excesso de lixo. Enquanto está amamentando, a mulher não necessita utilizar recursos da terra, nem da água, nem metais, nem plásticos, nem combustíveis. O aleitamento materno ajuda a proteger a natureza. 

Considere os seguintes fatores: 

  • Se cada bebê dos EUA fosse amamentado, a Mãe Terra não teria que fornecer, anualmente, cerca de 86 mil toneladas de metal, com as quais de produzem 550 milhões de latas, além de 1230 toneladas de papel que se utilizam nas etiquetas  destas latas.
  • As  mamadeiras, os bicos e demais equipamentos relacionados com a 
  • alimentação artificial, requerem que se utilize plástico, um material extremamente poluente, além de vidro e silicone. 
  • Em 1987,  foram vendidas 4,5 milhões de mamadeiras somente no Paquistão. O número por bebê, nos países  industrializados, é ainda maior. Isso representa um enorme desperdício de recursos naturais, além de agravar o problemas de contaminação e eliminação do lixo.
 
UM ALIMENTO INTELIGENTE

Imagine um cardápio que muda para adaptar-se ao meio ambiente e à natureza: existem novos agentes infecciosos rodeando o bebê? O leite materno vai criar anticorpos para protegê-lo.  O leite materno é como um cardápio que muda para suprir as  necessidades de cada criança. Por exemplo: o leite produzido por mães de bebês prematuros é produzido de forma a ajudar aquela criança a enfrentar as dificuldades específicas de uma criança prematura e vai mudando de composição conforme o desenvolvimento do bebê.

  

NUTRIÇÃO AO LONGO DA VIDA 

As Mulheres e a segurança alimentar 

A segurança alimentar é fundamental ao longo de toda a vida das mulheres. Novas gerações podem apresentar problemas de saúde, devido à nutrição deficiente das mulheres. Isto pode afetar a vida das gerações seguintes, formando um triste círculo de fome e desnutrição. 

Concepção e gravidez 

As meninas necessitam de uma nutrição saudável, antes que começem sua vida reprodutiva e tenham completado seu próprio desenvolvimento, o que acontece apenas depois dos 20 anos de idade. As deficiências energéticas, em ácidos graxos e micro-nutrientes podem resultar em bebês de baixo peso ao nascer. 

Desnutrição materna 

Uma boa nutrição, durante a gravidez, ajuda na formação de bebês saudáveis. Os bebês de baixo peso ao nascer enfrentam muitas desvantagens, incluindo um maior risco de infecção e de morte durante as primeiras semanas de vida, além de uma maior incidência de enfermidades como a diabetes, infarto e doenças do coração em sua vida posterior. 

A desnutrição materna é a causa mais comum de bebês de baixo peso ao nascer. As mulheres grávidas têm um risco adicional de sofrer deficiências nutricionais, particularmente aquelas de família com baixo poder aquisitivo, ou que consomem alimentos de baixa qualidade. 

As mães que amamentam 

Como responsável pela produção de um alimento tão especial, as mulheres que amamentam necessitam de um ambiente que as apoiem, incluindo aí a garantia de ter supridas suas necessidade nutricionais e de saúde. Além da importância de ver garantido seu direito humano à boa e suficiente alimentação, para garantir sua própria saúde, as mães que amamentam necessitam consumir maiores calorias e cuidar-se melhor, já que são a melhor fonte de nutrição e de cuidado infantil. 

O primeiro leite 

O colostro, primeiro leite produzido pela mãe, logo após o parto, supre  todas as necessidades nutricionais de qualquer recém-nascido(a). Tem grandes propriedades anti-virais, contém agentes que atacam as bactérias, fortalece o sistema imunológico dos bebês e é uma importante fonte de vitamina A. Imagine então, desperdiçar-se um alimento assim! 

Introduzindo alimentos sólidos 

Por volta dos 6 meses, a maioria dos bebês necessitam de alimentos complementares ao leite materno. Mas os bebês e crianças em desenvolvimento não necessitam alimentos industrializados e caros. Uma combinação da dieta familiar e leite materno podem lhes dar os nutrientes que necessitam, e ser acessível.  Os estômagos pequenos requerem alimentos frequentes e variados. 

As  indústrias que promovem alimentos processados caros enfraquecem as habilidades que mulheres têm de fazer alimentos caseiros que são mais nutritivos e baratos. A propaganda comercial de alimentos para menores de 6 meses viola o Código Internacional de Comercialização de Substitutivos de Leite Materno. 

Dois anos e mais 

Os beneficios da amamentação continuam depois de que se iniciam os outros alimentos da dieta familiar. O leite materno é uma fonte completa de proteínas que complementam os cereais e os outros alimentos. 

Em muitas comunidades de diversos países, as meninas recebem menos alimento que os meninos. Mesmo na América do Norte, onde não é comum a desnutrição crônica, as mulheres alimentam-se menos que os homens e, algumas vezes, como produto dessa desigualdade de oportunidades de que são vítimas, mostram menos interesse e prazer em alimentar-se. 

DEFICIÊNCIAS NUTRICIONAIS 

Os beneficios do leite materno como micro-nutrientes dão aos meninos e meninas a esperança de uma saúde melhor e, consequentemente, melhor qualidade de vida. 

O leite materno tem um papel importante em corrigir as deficiências que  
ameaçam a vida das pessoas em diversas partes do mundo. Em alguns lugares, a deficiência de ferro, iodo e vitamina A, são uma praga que afeta a milhões de mulheres e crianças. 

Deficiência de ferro 

O problema mais comum de nutrição, no mundo, é a anemia, a deficiência de ferro. Ela afeta sobretudo mulheres em idade reprodutiva e as crianças, meninos e meninas. Em todo o mundo, 60% das mulheres estão anêmicas. Isto resulta no nascimento de bebês prematuros(as), de baixo peso ao nascer, e com  baixas reservas de ferro, e tem como resultado mães e bebês doentes. 

Mesmo o leite materno tendo somente uma pequena quantidade de ferro (0.5-1mg/l) os bebês amamentados raramente sofrem dessa deficiência, porque o ferro que está presente no leite materno é melhor absorvido de toda as formas. O ferro das fórmulas infantis não é bem absorvido pelos bebês. 

A introdução prematura de alimentos complementares, e a sua composição, reduzem em muito a eficiência da absorção de ferro contido no leite materno. Mesmo mães anêmicas produzem leite materno que oferece suficiente ferro a seus bebês 

Deficiência de vitamina A 

O leite materno é a melhor fonte de vitamina A para as crianças. A deficiência de vitamina A afeta aproximadamente 250 milhões de meninos e meninas ao redor do mundo. Esssa vitamina é importante para os bons níveis de saúde e para prevenir enfermidades. 

As consequências da deficiência de vitamina A incluem o incremento sério de infecções e mortes associadas, o retardo do crescimento, a anemia com deficiência de ferro e a cegueira noturna.Sem leite materno, os récem-nascidos podem manter um nível ótimo de vitamina A por muito poucas semanas. 

Já entre os bebês amamentados, a deficiência de vitamina A é muito rara. Mesmo o leite de mães desnutridas protege contra a deficiência de vitamina A durante os seis primeiros meses de vida, se estes bebês são amamentados exclusivamente. Os níveis de vitamina A no leite materno, entretanto, são influenciados pela dieta e pelo estado nutricional da mãe. 

ASSEGURANDO UM FUTURO SAUDÁVEL 

O aleitamento materno tem uma grande relação com a saúde infantil por prevenir doenças. E, por ajudar no espaçamento entre uma e outra gravidez, contribui para a planificação familiar. É importante fazer ver aos governantes que o leite materno é o primeiro alimento e o mais seguro para todas as crianças, e que é dever do Estado proteger o exercício deste direito. 

O aleitamento materno é um pilar de apoio da segurança alimentar, da economia, dos recursos naturais, da sustentabilidade, do meio ambiente e do futuro das pessoas e de nosso planeta. 

Em novembro de 1996, a FAO organizou em Roma uma reunião mundial sobre alimentação e nutrição.  WABA, IBFAN e outras ONGs fizeram muitas sugestões com respeito ao aleitamento materno e a segurança alimentar ao redor do mundo. Algumas destas recomendações foram: 

  • Reconceitualizar segurança alimentar, incluindo o aleitamento materno;
  • Promover a amamentação como parte do plano de Segurança Alimentar de cada país;
  • Incluir a amamentação nos cálculos de alimentos dos países, na hora do balanço alimentar, e contabilizá-la como o único alimento de que necessitam milhões de bebês menores de 6 meses.

RECEITA DE SEGURANÇA ALIMENTAR 

Que podemos fazer? 

  • Participar das atividades do Dia Mundial da Alimentação.
  • Fazer com que os programas e grupos que promovem a amamentação incorporem a questão da saúde e de nutrição das mulheres como uma base prioritária.
  • Incluir o aleitamento materno nos currículos de educação sobre nutrição a todos os níveis.
  • Promover intercâmbios de receitas locais sobre alimentos de desmame.
  • Participar de boicotes contra as empresas que preferem o lucro à  redução da fome.
  • Solicitar que Governos e ONGs que trabalham com a questão da segurança alimentar produzam também materiais educativos sobre a amamentação e organizem o apoio comunitário para as mães que amamentam.
  • Lutar contra programas de distribuição de leite em pós às comunidades carentes.
  • Lutar para que as campanhas contra a fome, dêem especial atenção às necessidades de micro-nutrientes das mães que amamentam e de seus bebês.
 
DIREITOS DA INFÂNCIA

Declarações com ênfase no aleitamento materno na Convenção sobre os Direitos da Infância foram adotaram na Fórum Mundial sobre Nutrição, e em seu Plano de Ação (Roma, setembro  de 1996): 

Compromisso 1: 

14 (new d) - Dar especial atenção às necessidades das crianças, particularmente das meninas, em todos os programas de segurança alimentar para que sejam consistentes com a Convenção dos Direitos da Criança. 

14 (new e) - Destacar a  especial contribução que fazem as mulheres para assegurar a nutrição infantil e de suas famílias, com ênfase na importância da amamentação para as crianças. 
 

  
Esse texto foi originalmente preparado pela antropóloga canadense Penny Van Esterik para a série de «Activity Sheets» da WABA - Aliança Mundial para Ação em Aleitamento Materno. Traduzido e adaptado para o Português pelo Grupo Origem. Pode ser reproduzido, sem autorização prévia, desde que citada a fonte.

 

 

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