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Situação Alimentar no Mundo
No próximo dia 16 de
outubro comemora-se, em todo o mundo, o Dia Mundial da
Alimentação. Aproveitando a data, é importante
refletirmos sobre a situação alimentar no mundo atual e,
especialmente, no Brasil.
Entramos no novo milênio com
1,2 bilhão de pessoas em todo o planeta (incluindo mais de
500 milhões de crianças) vivendo abaixo da linha de
pobreza, definida pela ONU (Organização das Nações
Unidas) como sendo pessoas que vivem com menos de 1 dólar/dia,
o que seria o mínimo necessário para a sobrevivência.
Segundo o estudioso norte-americano Phillip Harten, de cada
100 pessoas no mundo, 13 passam fome diariamente.
Em se tratando de Brasil, os
dados são igualmente assustadores. O Mapa da Fome, elaborado
pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em 1993,
revelou a fome e a indigência de 32 milhões de
brasileiros (algo próximo à população total do Canadá
ou da Argentina). Nesse estudo, considerou-se como indigente a
pessoa cuja renda familiar mensal correspondesse, no mínimo,
ao valor de aquisição de uma cesta básica de alimentos que
atendesse aos requerimentos nutricionais recomendados pela FAO/ONU
e OMS (Organização Mundial da Saúde). O Nordeste brasileiro
apresentou o mais alto índice, com 40% de sua população em
estado de indigência.
No meio rural a situação
é ainda mais grave, com 50% da população abaixo da
linha da pobreza. Se pensarmos que 32% da população
brasileira está no campo, podemos visualizar que um grande
contingente populacional encontra-se em situação de miséria
e fome no meio rural. É justamente aí que encontramos os
mais altos índices de desnutrição infantil. Situação
ainda mais crítica é a dos trabalhadores rurais sem terra.
Estima-se que, no país, existam 4,8 milhões de famílias sem
terra para viver e trabalhar. Há também a situação dos
pequenos agricultores que, mesmo possuindo terra, não dispõem
das condições mínimas necessárias para gerar o sustendo de
suas famílias.
Um dos mais importantes
indicadores da qualidade de vida em um país é a taxa de
mortalidade nos menores de 5 anos, considerada como o número
de crianças que morrem antes de completar 5 anos de idade
para cada mil nascidos vivos. Embora seja considerado como a 8ª
economia do mundo, o Brasil ocupava, em 1999, a 89ª posição
no ranking da mortalidade dos menores de 5 anos (40 crianças
por mil nascidos vivos), posição dividida com o Vietnã.
Para se ter uma idéia do que
isso significa, o 1º lugar é ocupado por Serra Leoa (316
crianças/mil nascidos vivos) e a última posição (187ª) é
dividida pelos países: Japão, Noruega, Cingapura, Suécia e
Suíça (4 crianças/ mil nascidos vivos). Acima de nós estão:
México, na 97ª posição, Paraguai, na 98ª, Argentina, na
123ª e Uruguai, na 139ª posição. Por curiosidade, Estados
Unidos e Cuba dividem a mesma 158ª posição.
Na identificação das causas
da mortalidade infantil, temos que lembrar que saúde e nutrição
são fatores inter-dependentes, ou seja, só se tem saúde
através de uma boa alimentação e, ao mesmo tempo, é necessário
um organismo saudável para aproveitar todos os elementos que
uma boa alimentação oferece. Assim, quando se analisa as
causas da mortalidade entre os menores de 5 anos, difícil é
se identificar qual a porcentagem de mortes devida à desnutrição
e/ou a carências nutricionais.
Entre as principais causas de
morte na infância, despontam as doenças infecciosas e
parasitárias e as doenças do aparelho respiratório,
entre outras causas externas onde a desnutrição aparece.
Normalmente, as causas de morte devido a deficiências
nutricionais só são reconhecidas quando a desnutrição é
identificada como principal causa que levou ao óbito, o que
pode revelar a existência de um registro sub-estimado, no país,
da relação entre o óbito infantil e o comprometimento
nutricional.
Mas a maior causa de morte de
crianças no Brasil, principalmente de bebês, continua sendo
a diarréia, provocada por doenças intestinais geralmente
fruto do deficiente acesso à água tratada e rede de esgoto
adequada, situação vivida por um grande número de pessoas
em todo o país.
Uma taxa de 72% de nossa
população tem acesso a instalações adequadas de saneamento
básico; desse total, 81% está na cidade e apenas 32% no meio
rural. No nosso vizinho Uruguai, 93% da população tem acesso
ao saneamento básico, independente de estar na zona urbana ou
rural. Em melhor situação está o Paraguai, que dá
cobertura em saneamento a 95% de sua população (rural e
urbana).
Conforme já dito, a desnutrição
infantil no Brasil alcança os níveis mais altos no meio
rural, embora se encontrem índices também elevados nos bolsões
de miséria e nas periferias dos grandes centros urbanos. Os
estudos nessa área têm revelado, constantemente, uma grande
disparidade regional. Enquanto nos estados do sul encontram-se
índices de desnutrição semelhantes aos dos países
desenvolvidos, nas regiões Norte e Nordeste esses índices
se comparam aos dos países mais pobres do mundo. Enquanto
isso, nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, os índices de
desnutrição infantil se assemelham aos dos países em
desenvolvimento, onde há níveis médios ou altos de riqueza
e acesso relativo aos serviços básicos (água, esgoto, educação
e saúde).
Segundo dados da UNICEF de
1999, 6% das crianças brasileiras menores de 5 anos
apresentam baixo peso e 11% sofrem de nanismo moderado ou
grave, ou seja, apresentam déficits acentuados de
crescimento. O acesso limitado aos gêneros alimentícios
básicos é a principal causa dessa situação, o que é
agravado por condições inadequadas de vida. A chamada
desnutrição proteico-calórica significa um consumo de
alimentos abaixo das necessidades calóricas, quando a pouca
proteína ingerida passa a ser consumida para produção de
energia e não para as suas funções específicas. Com isso,
o desenvolvimento do organismo é interrompido ou prejudicado,
uma vez que não há proteína disponível para promover o
crescimento, nem mesmo calorias suficientes para garantir as
demandas energéticas decorrentes desse processo.
Além do grande déficit calórico
que atinge grande parte da população brasileira (consumo em
calorias inferior às necessidades energéticas do indivíduo),
temos hoje, no país, graves deficiências nutricionais específicas,
como a carência de ferro, iodo, cálcio e vitamina A, que
atingem principalmente as crianças.
As deficiências de cálcio e
ferro são devidas principalmente ao alto custo dos alimentos
mais ricos nesses nutrientes, leite e derivados para o cálcio,
e carnes e vísceras para o ferro. É grande o número de
crianças que apresentam raquitismo em todo o país, gerado
por um consumo muito baixo de alimentos ricos nesse nutriente.
Prejuízos ao crescimento freqüentemente ocorrem em função
de um consumo insuficiente de cálcio, quando a oferta de
leite e derivados à criança é muito baixa, principalmente
após o desmame completo. Embora hortaliças de folha, como a
couve e o almeirão, entre outras, possam também fornecer
quantidades razoáveis de cálcio na alimentação diária,
nem sempre esses alimentos estão disponíveis, sendo tão
raros quanto o leite em muitas regiões do país e para muitas
famílias de baixa renda. Por isso, o incentivo à produção
de hortas caseiras pode ser uma ação preventiva tão
importante para a saúde das crianças.
Com relação à deficiência
de ferro, apesar de o feijão ser uma fonte relativamente boa
desse nutriente e esse alimento ser parte importante do hábito
alimentar de nossa população, a quantidade de ferro ingerida
em uma alimentação à base de arroz e feijão normalmente é
insuficiente para fornecer a quantidade desse elemento necessária
para promover o perfeito crescimento e desenvolvimento da
criança, o que leva a um alto índice de anemia por carência
de ferro no país (estima-se que 40% de nossas crianças
sofram de anemia ferropriva), que pode ser agravada pelas
infecções recorrentes. Além de gerar uma baixa resistência
imunológica, a carência de ferro prejudica o
desenvolvimento cognitivo, podendo levar a dificuldades no
aprendizado.
Mulheres em idade fértil
também são grandes vítimas da anemia no Brasil, o que pode
levar a complicações no período da gestação e aumentar os
riscos no parto. Basta citar que temos um dos mais altos índices
de mortalidade materna na América Latina. Programas sociais
de baixo custo poderiam minimizar o problema, através de um
acompanhamento adequado às gestantes e orientação alimentar
específica. O estímulo ao aleitamento materno é também uma
ação importante na prevenção da anemia em crianças
menores de 2 anos.
A hipovitaminose A é ainda
uma das principais causas de cegueira em crianças em todo o
mundo, e é gerada, principalmente, por um consumo
insuficiente de vegetais e frutas, embora as vísceras animais
possam se constituir também em boas fontes desse nutriente.
No Brasil, essa carência ocorre mais na região Nordeste,
principalmente no semi-árido nordestino. A deficiência de
vitamina A agrava o quadro da desnutrição e da diarréia,
assim como leva à queda da resistência imunológica.
A carência de iodo é comum
no Brasil, uma vez que nosso solo é, em geral, deficiente
nesse nutriente. O acesso ao sal iodado é uma medida
essencial na prevenção dessa carência nutricional.
Muitas alternativas têm
surgido para minimizar ou resolver o problema, como a utilização
de alimentos alternativos (como a multimistura) que, muitas
vezes, podem ter algum efeito no combate a alguma carência
nutricional específica (como a deficiência de cálcio ou
vitamina A), mas que não solucionam o problema do acesso aos
alimentos básicos, o que deveria ser garantido a todas as
camadas da população brasileira. A desnutrição só pode
ser combatida através de um consumo adequado de alimentos, em
quantidade e qualidade suficientes para reverter o quadro da
desnutrição e garantir a retomada do perfeito
desenvolvimento.
De fato, avançamos muito nas
últimas décadas em se tratando da situação da infância no
país. Basta lembrar que, em 1960, a mortalidade dos menores
de 5 anos era de 177 crianças por mil nascidos vivos. Os últimos
estudos demográficos e sociais mostraram uma queda acentuada
da desnutrição infantil nos últimos quinze anos, embora
ainda tenhamos índices elevados em algumas regiões do país.
Os planos econômicos que geraram relativa estabilidade nos
preços dos gêneros básicos, levaram a uma melhoria no padrão
alimentar de boa parcela da população brasileira, refletindo
na queda dos índices de desnutrição. Porém, houve uma
melhora no acesso aos gêneros de mais fácil aquisição, com
preços mais acessíveis, geralmente mais ricos em calorias e
pobres em alguns nutrientes essenciais, o que não levou a
melhorias substanciais nos índices das carências
nutricionais.
Paralelamente, tem surgido um
novo problema alimentar no país, sentido por todas as camadas
da população, que é aumento da obesidade, incluindo a
obesidade infantil. Mudanças nos hábitos alimentares, com
incorporação de novos alimentos mais calóricos em
detrimentos de outros, têm sido algumas das principais causas
da elevação nos índices de obesidade. O problema tem sido
mais observado em mulheres das classes mais desfavorecidas,
provavelmente em função de um alto consumo de alimentos
ricos em carboidratos e gorduras (arroz, farinhas, massas, pães,
biscoitos, frituras etc) e pobre nos demais nutrientes, e um
baixo consumo de vegetais, frutas, leite e carnes, quase
sempre em função do preço dos mesmos. A obesidade leva uma
maior predisposição a uma série de doenças, como as
cardiovasculares e alguns tipos de câncer.
Esse fato mostra o quanto são
necessárias e urgentes medidas que facilitem e garantam o
acesso aos diferentes tipos de alimentos a todos, o que
levaria a uma melhora no padrão alimentar de nossa população
e evitaria as graves deficiências nutricionais que ainda
assolam o Brasil. Somos um país com um potencial agrícola
invejável, terceiro maior exportador de produtos agrícolas
no mundo, capaz de produzir alimentos em quantidade e
qualidade suficiente para garantir uma nutrição adequada a
todos os seus habitantes. Infelizmente, apenas 13% das nossas
terras estão ocupadas com lavouras permanentes e temporárias,
estando 51% das terras ocupadas com pastagens naturais e
artificiais.
Finalizando, no momento de se
comemorar o Dia Mundial da Alimentação, vale refletir sobre
a situação do país em que vivemos e sobre o que desejamos
ser enquanto nação. Para isso, vamos lembrar o conceito de
Segurança Alimentar construído pelo grupo de estudos que
elaborou importante documento sobre a situação alimentar no
Brasil, apresentado na 1ª Conferência Nacional de Segurança
Alimentar (Brasília, 1994):
"Segurança Alimentar
significa garantir, a todos, condições de acesso a alimentos
básicos de qualidade, em quantidade suficiente, de modo
permanente e sem comprometer o acesso a outras necessidades,
com base em práticas alimentares saudáveis, contribuindo
para uma existência digna, em um contexto de desenvolvimento
integral da pessoa humana".
Documentos Consultados:
Situação Mundial da Infância – Relatório da
UNICEF – 2001
Panorama Atual da Segurança Alimentar no Brasil – Francisco
Menezes/IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e
Econômicas) - 1998
Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde (PNDS) - 1996
Censo Agropecuário do IBGE – 1996
Site visitado: http://www.ibase.org.br
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