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Ofensiva na segurança
alimentar
FRANCISCO MENEZES
Recentemente, representantes governamentais e da sociedade
civil tiveram a oportunidade de construir em conjunto as bases
para uma política nacional de segurança alimentar e
nutricional. O fato, ocorrido em março, com a realização da
II Conferência Nacional de Segurança Alimentar e
Nutricional, em Olinda (PE), é um significativo passo no
combate às condições que fazem com que uma parcela da
população ainda conviva com a falta de acesso a alimentos de
forma regular e de boa qualidade.
Entre as 160 propostas aprovadas durante o encontro, cabe
destacar algumas que com a efetiva participação do Conselho
Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) — órgão
de consulta do presidente da República — poderão se
converter em ações e programas do governo federal. Uma delas
refere-se ao estabelecimento do Plano de Safra 2004/2005 para
a agricultura familiar e os assentamentos de reforma agrária.
Os ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário já
esboçaram suas propostas, que deverão ser conhecidas e
discutidas pelo Conselho.
Com resultados ainda parciais, pois o ano-safra 2003/2004 não
se encerrou, já se conhecem resultados significativos, como a
liberação de R$ 4 bilhões em crédito para a agricultura
familiar, volume nunca antes alcançado, fazendo ainda subir
de 970 mil para 1,2 milhão o número de contratos do Programa
Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf). Pretende-se agora
ampliar ainda mais o alcance dessa política, bem como superar
dificuldades com a demora na liberação dos recursos e com
exigências de garantias muitas vezes impossíveis de serem
atendidas pelos pequenos agricultores, retardando e
dificultando a consecução dos objetivos do plano. Ao Consea
caberá o acompanhamento da execução do novo plano,
trabalhando para corrigir as distorções que se apresentam.
Outro exemplo da contribuição que o Consea pode dar está na
articulação do Bolsa Família com iniciativas
complementares, de forma a garantir que as famílias atendidas
possam no futuro superar sua condição de miséria.
Trata-se de oferecer registro civil, alfabetização, maior
qualificação profissional, assistência básica à saúde,
bem como garantir as crianças na escola para todas as famílias
contempladas nesses programas. A Conferência de Segurança
Alimentar e Nutricional foi enfática nesta preocupação e a
articulação, no âmbito do Consea, de diferentes ministérios
como o de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, o da Educação
e o da Saúde, junto com representações da sociedade poderão
estabelecer relevantes iniciativas nesta direção.
Há ainda a necessidade de fortalecimento do Sistema de Vigilância
Alimentar e Nutricional, que já consegue estar presente na
maioria dos municípios brasileiros, mas não alcança todo o
público sobre o qual deve atuar. O Sisvan realiza a chamada
avaliação antropométrica pesando e medindo crianças de até
5 anos, gestantes e nutrizes. Caso alcançasse um grau de
cobertura sobre todo este contingente da população, onde a
condição nutricional ainda é freqüentemente vulnerável,
teríamos um mapa de extraordinária importância para a
aplicação de uma série de programas e ações de segurança
alimentar e nutricional. O Brasil não pode continuar tateando
sobre o drama da desnutrição, apenas presumindo essa
realidade. Na discussão que o Consea deve em breve travar
sobre o orçamento da segurança alimentar e nutricional, há
que se buscar garantir os recursos para que nos três níveis
de governo o Sisvan se torne um guia efetivo para nossa política.
Estes e muitos outros desafios estão dados. As prioridades
manifestadas no Fome Zero devem encontrar seu campo de realização
na prática intersetorial que o Consea enseja, ao reunir
diferentes ministérios e setores da sociedade em torno de um
objetivo comum. Propondo diretrizes para uma política de
segurança alimentar e nutricional ao presidente da República,
criam-se melhores condições para tornar realidade um país
no qual o direito humano à alimentação de qualidade e
adequada é princípio básico de afirmação da cidadania
para todos.
FRANCISCO MENEZES é presidente do Conselho Nacional de
Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e diretor do
Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).
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